Desde a minha primeira coluna, venho procurando trazer aos leitores
um mapeamento da produção nacional e internacional
de videodança através de eventos que se dedicam à
exibição e produção desse tipo de obra.
Numa perspectiva brasileira, existem poucos festivais envolvidos
com o tema. Entre eles, destaca-se o recentemente extinto Dança
Brasil (Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro e Brasília)
e o Festival Internacional da NovaDança (Brasília).
Ambos iniciaram suas mostras paralelas de vídeos de dança
em 1997, além de promover outras atividades, como palestras
e debates sobre o tema. Outro destaque vai para o Rumos Dança,
do Itaú Cultural (São Paulo), uma iniciativa que,
em 2004, comissionou, pela primeira vez no Brasil, duas produções
de videodança: Pé de Moleque, de Kiko Ribeiro e Dafne
Michellepis; e Dentro do Movimento, de Chico de Paula e Patrícia
Werneck. Recentemente, o evento lançou outra convocatória
(com prazo até 31 de maio – vide website abaixo) para
a produção de mais cinco obras do gênero.
Do ponto de vista da exclusividade, até que se prove o contrário,
o Dança em Foco (SESC – Rio de Janeiro) é o
primeiro festival brasileiro inteiramente dedicado à interface
vídeo/dança. Uma iniciativa única no país
também na criação de parcerias com outros festivais
da América Latina. Desde 2004, o evento é associado
ao Festival Internacional de Videodanza del Uruguay e ao Festival
Internacional de Video-Danza de Buenos Aires, formando o Circuito
Videodança Mercosul, uma espécie de compilação
de importantes obras dos três países. Na sua última
edição, o Dança em Foco encerrou a temporada
de lançamentos deste circuito. O Uruguai foi o primeiro fazendo
o lançamento em outubro, seguido da Argentina, em novembro,
e, finalmente, do Brasil, em dezembro.
Ainda nessa edição de 2005, o Dança em Foco
também consolidou uma plataforma de exibição
internacional onde se destacaram produções francesas
e norte-americanas. Além da mostra de videodança a
programação contou com oficinas, palestra e mesa redonda
com a participação de convidados nacionais e internacionais.
De fato, a videodança é uma forma artística
em pleno desenvolvimento em vários países do mundo,
unindo tecnologia, dança, vídeo e cinema em obras
de grande visibilidade através de festivais, distribuição
direta e apresentações na televisão. A videodança
é definitivamente o veículo de maior alcance para
a coreografia contemporânea. Seu espaço no cenário
artístico nacional, ainda restrito, cresce visivelmente.
Apesar disso, as tentativas de conceituação deste
tipo de obra ainda continuam limitadas, já que não
conseguem abranger as inúmeras possibilidades de criação.
Pode-se pensar na videodança como o diálogo entre
a dança e o vídeo cujo resultado gera um tipo de obra
onde essas linguagens se tornam indissociáveis. Uma arte
que existe apenas no vídeo e para o vídeo. Enfim,
trata-se da materialização de um pensamento que integra
as idéias do coreógrafo e do videomaker numa forma
híbrida que não deixa distinções entre
o vídeo e a coreografia. Mas essa é apenas uma das
inúmeras leituras possíveis, pois encontramos variáveis
a cada nova criação.
Do ponto de vista histórico, a bailarina e cineasta ucraniana
Maya Deren foi quem introduziu um modo diferente de pensar e agir
na convergência entre o audiovisual (no caso, o cinema) e
a dança. Em seu artigo Choreography for the Camera, publicado
na Dance Magazine, em outubro de 1945, ela afirmou que o bailarino
e o cineasta deveriam saber um pouco do ofício do outro para
que o filme se tornasse uma obra híbrida. Ela não
acreditava numa criação onde o bailarino estivesse
preocupado somente com a própria composição
coreográfica e o cineasta com os efeitos pictóricos
da fotografia. Os filmes mais conhecidos da coreógrafa foram:
Meshes of the Afternoon (1943); A Study in Coreography for Camera
(1945), Ritual in Transfigures Time (1945/6); e The Very Eye of
Night (1952/59). Em 2002, através de uma parceria entre a
Áustria e a República Checa, foi criado In the Mirror
of Maya Deren, de Martina Kudlacek, um belo documentário
sobre a vida da artista.
Ainda nos Estados Unidos, outras importantes contribuições
vieram do coreógrafo americano Merce Cunningham, que desde
a década de 1970 já trabalhava em parceria com o videomaker
Charles Atlas e, mais recentemente, com Elliot Kaplan. Na Bélgica,
na década de 1980, a famosa coreógrafa Anne Teresa
De Keersmaeker, diretora do grupo Rosas, criou uma obra com o famoso
cineasta Peter Greenaway e outras com o músico e cineasta
Thierry De Mey. Lloyd Newson, diretor do grupo inglês DV8,
trabalhou com os diretores David Hinton e Clara Van Gool. Há
outros artistas que não podem deixar de ser citados como
importantes criadores de videodança, entre eles: os coreógrafos
Phillippe Decouflé, Angelin Preljocaj, Suzanne Linke, Meg
Stuart, Mats Ek, Sylvie Guillem, e o cineasta Cyril Collard.
No Brasil a bailarina, coreógrafa e videomaker Analívia
Cordeiro é considerada a pioneira tanto na videodança,
como na videoarte. Entre suas criações destacam-se
M3x3 (1973), Slow-Billie Scan (1977), Trajetórias (1984),
0°=45 (1974/1989), Ar (1985), Striptease (1997), e, mais recentemente,
Carne (2005), exibida na última edição do Dança
em Foco. Outros nomes importantes de coreógrafos e videomakers
que vêm produzindo videodança no Brasil são:
Nelson Enohata, Cecília Lang, Henrique Rodovalho, Kleber
Damaso, Lilyen Vass, Alex Cassal, Fernanda Lippi, André Semenza,
Mara Castilho, Andréa Maciel, Paulo Mendel, Angélica
Carvalho, Eduardo Sánchez, Andréa Bardawil, Alexandre
Veras Costas, Karen Virgínia, Luiz Carlos Bizerril, Sheila
Ribeiro, Rodrigo Raposo, Letícia Nabuco, Tatiana Gentile,
Thelma Bonavita, Luciana Brites, João Andreazzi, Maíra
Spanghero, Gilsamara Moura, Lara Pinheiro, entre outros.
Uma lista bastante expressiva considerando que a maioria desses
criadores produz suas obras com recursos próprios. Com efeito,
essa demanda poderia ser atendida, por exemplo, por festivais, seja
abrindo janelas de exibição em sua programação,
seja lançando editais que forneçam recursos financeiros
para este tipo de produção. Acredito que estas iniciativas,
acompanhadas do apoio de canais de televisão e de outras
instituições patrocinadoras, possam estabelecer, em
médio prazo, um mercado brasileiro de videodança.
Leonel Brum (leobrum@terra.com.br)
Pesquisador e Diretor Artístico do Dança Brasil e Dança
em Foco e um dos fundadores do Circuito Vídeo-dança Mercosul.
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