Ambas viveram em São Paulo e desempenharam importante papel
na história do desenvolvimento da história do nosso
ballet. Nos deixaram, levando consigo a certeza do papel cumprido,
a convicção de que atenderam à força
da vocação.
Refiro-me a Halina Biernacka e a Marília Franco.
Soube do falecimento de Halina Biernacka através de seu
aluno e eterno admirador Thadeu de Carvalho. Não tive o privilégio
de conhecê-la, mas a vida me reservou a felicidade de assistir
a duas de suas mais brilhantes discípulas: Cecília
Kerche e Cecília Botto.
Cecília Kerche, glória de hoje, embaixatriz brasileira
da dança, dispensa apresentações, até
porque continua em plena forma atuando no Theatro Municipal do Rio
e em galas pelo país e pelo exterior. Cecília
Botto viajou cedo, não teve tempo de firmar em sua própria
pátria seu nome de grande bailarina. Mas eu pude vê-la
e nunca a esqueci. Muito loura, tinha uma figura pura e diáfana.
Em 1962, fora uma das representantes do Brasil no 1º Concurso
Internacional de Ballet do Rio de Janeiro, que contara com a participação
de mais de 70 candidatas do mundo inteiro. Não lembro de
suas provas de repertório, mas sua variação
de livre escolha, criada por Biernacka, ficou para sempre na minha
lembrança. Foi ali, mais do que em qualquer outro momento
do concurso, que a mestra, mostrando sua competência, revelou
a bailarina que orientara. Cecília chegou a primeira-bailarina
da Rambert Dance Company.
Ainda devemos a D. Halina a primeira remontagem brasileira, em
Santos, de “La Sylphide” na versão completa de
Auguste Bournonville. Os intérpretes principais foram Cecília
Botto e Aldo Lotufo, nosso maior mito de bailarino.
Uma só mestra: Halina Biernacka. Duas bailarinas com o mesmo
belo nome próprio: Cecília. Duas bailarinas com carreira
internacional.
Certamente D. Halina preparou muitos outros bailarinos de projeção.
Num filme de segundos, mas lindo, que me foi enviado por Marisa
Pivetta, tive a felicidade de constatar que registraram fragmentos
de sua vida, algo absolutamente incomum entre nós!!! - Halina
Biernacka: 1914-2005.
A notícia da morte de Marília Franco também
me veio através de uma ex-aluna, Karin Guimarães,
pela internet. Lera em meu site o livro que escrevi sobre a vida
de Vaslav Veltchek, com quem Marília fora casada, e agradecia
as referências à sua mestra.
Pensei: preciso registrar o desaparecimento dessas duas grandes
figuras da nossa história. Marília encantara um
mestre internacional como Veltchek e conquistara o público
e a crítica do Theatro Municipal do Rio na temporada de 1943.
Seu sucesso fora tão expressivo que acabara com seu próprio
casamento: sua carreira a levara ao exterior tornando-a uma das
primeiras bailarinas brasileiras a fazer sucesso internacional,
atuando com destaque no Original Ballet Russo.
Sua interpretação em “Bacante: Dança
da Sacerdotiza de Baco” causara impacto. "Dionisíaca",
disseram os experts dessa paulista, muito jovem e bonita, trajando
uma túnica escarlate. Um trecho do livro me pareceu especialmente
interessante de ser transcrito pela referência a três
figuras paradigmáticas do nosso ballet:
“...O Globo de 28 de abril de 1943 publicou matéria
sob o título "O que se pode esperar da direção
de Veltchek":
Essa temporada deve ser especialmente assinalada não só
pela atmosfera criada pela presença prestigiosa e respeitável
de um artista e mestre como Veltchek, como ainda pelo seu interesse
cultural pelos próprios bailados brasileiros, visto que teremos,
entre outros, o Uirapuru do maestro Villa-Lobos, criado aqui no
Rio com tanta poesia através de Madeleine Rosay e, em São
Paulo, pela emoção casada à sensibilidade nacional
de Marília Franco, e agora editado pelo talento autônomo
da criadora dos bailados brasileiros, ou seja, Eros Volúsia.
É de confrontos como esse oferecido mediante três interpretações
de um só bailado que se desenvolve o interesse do público
pela dança, e se vai formando, com o próprio gosto,
o espírito da platéia. Daí o dizermos que esta
temporada de bailados oferece, sob este, como sob outros aspectos,
um excepcional interesse para a nossa educação cultural
e artística em matéria de dança”.
Particularmente sobre Marília, a revista Brasil Musical
do mesmo ano publicou: "... Ela, uma autêntica revelação,
de grande temperamento; a coreografia uma obra-prima de estilo anti-acadêmico
e perfeitamente moderno, com certa influência do expressionismo
alemão". De fato, ela era uma revelação,
a julgar pela interpretação do papel título
de “Yara”, ballet coreografado em 1946 pelo bailarino
e coreógrafo de origem russa Váña Psota para
o Original Ballet Russe.
Não sei quando Marília voltou ao Brasil. Em 1957
ela já era professora da Escola Municipal de Bailados de
São Paulo, fundada pelo próprio Veltchek em 1940,
seu amigo da vida toda. Alguns dos melhores profissionais de
São Paulo foram alunos dessa mestra, que atuou na escola
oficial dirigindo-a por 33 anos. Uma de suas biografias menciona,
dentre muitos outros, Aracy de Almeida, Gil Saboya, Ismael Guiser
e Camila Pupa. - Marília Franco: 1923-2006.
Quedei-me comovida refletindo sobre as trajetórias dessas
duas personalidades. Refleti sobre tantos/as companheiros/as que
já se foram, anônimos, sem qualquer tipo de reconhecimento.
Não pode ser assim, não é justo que seja
assim. Esses artistas viveram um belo ideal, ultrapassaram inúmeras
dificuldades e acreditaram, até os últimos dias de
sua vida, no ballet como técnica e arte viva da criação,
expressão do belo e da poesia em forma de movimento. Conforta-me
dispor desse espaço, no qual colaboro há tanto tempo,
para homenageá-las e afirmar o que já sabemos:
Todos os que passaram pelas mãos dessas mestras, que ouviram
suas palavras, que amam o ballet, acreditam-nas vivas. E elas estão,
só não sabemos onde.
Eliana Caminada é professora de História da Dança
na UniverCidade e Universidade Castelo Branco e foi primeira
bailarina do Theatro Municipal – RJ Página pessoal: http://www.elianacaminada.net
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