A aposta na diversidade fez da temporada de clausura do 2005 do
American Ballet Theatre um verdadeiro sucesso. Dezessete apresentações
no City Center de Nova Iorque com a casa (quase) sempre cheia confirmaram
a eficiência do repertorio multiestilístico.
A peça estrela da temporada foi “Gong”, última
criação de Mark Morris para a companhia, com música
de Colan McPhee e esplêndido vestuário de seu colaborador
Iaac Mizrahi.
Mark Morris reedita seu romance com a técnica acadêmica,
um romance vital e sobre tudo, muito bem humorado. “Gong”
é uma obra etno-light, composta com a riqueza musical e espacial
que é usual em Morris e com o bonus-track de uma indescritível
e terna despretensão. Entre os quinze bons bailarinos que
a interpretaram é inevitável registrar a projeção
artística de Julie Kent e o brilho da ascendente uruguaia
María Riccietto, em muito boa forma.
Outra das obras esperadas era a remontagem de “In the Upper
Room” de Twyla Tharp que foi um grande êxito da companhia
no fim da década de 80. A difícil tarefa de remontar
esta intricada pauta coreográfica de Tharp coube ao bailarino
Keith Roberts, que logrou um resultado extraordinário; conseguiu
uma entrega quase total da companhia, o que produz uma energia inusual
no palco. “In the Upper Room” é uma peça
hiper-ativa, que usa a eloqüente música de Philip Glass
para transportar-se a um âmbito de motus-perpetuum, um espaço
aonde os corpos vem de todos os lados, tanto das laterais como da
grande massa de fumaça que ocupa a metade posterior do palco.
Se bem que a possamos catalogar como uma obra abstrata, isto não
a faz nada fria. O hábil entrelaçado das complexas
seqüências de Tharp se transforma em uma verdadeira cama
elástica de emoções, aonde saltam as mais diferentes
sensações. Sem dúvida alguma se trata de uma
obra mestra. O repertório mais tradicional, sem dúvida,
não teve tanta sorte como o contemporâneo. O “Apollo”
de Balanchine (na sua versão completa) foi apenas eficiente,
faltando-lhe um pouco de brilho ao estilo; o que não nos
impede de apreciar os bons dotes técnicos de Veronika Part,
Michele Wiles e Melanie Hamrick.
Algo parecido sucedeu com o “Tchaikovsky pas de deux”
também de Balanchine; se bem o espanhol Angel Corella se
esmerou em sua projeção; sua partenaire, a cubana
Xiomara Reyes não tem ainda condições de enfrentar
este desafio estilístico, sua performance não chega
a ser crível. Já no pas de deux de “Paquita”
(Minkus/Petipá) a ucraniana Irina Dvorovenko mostrou o que
é uma bailarina de ballet - com ótimo físico
e academicismo a toda prova dançou com sustentável
elegância apesar de alguns tropeços técnicos
na coda. Seu partenaire o cubano José Manuel Carreño
se desempenhou com o necessário profissionalismo.
Parece que a companhia está passando um momento no qual
solistas e corpo de baile pulsam mais que os bailarinos principais.
Nada mais sábio que mesclar o repertório desta temporada
com grandes obras do passado. A reposição de “Dark
Elegies” de Antony Tudor foi acertadíssima, se trata
de uma verdadeira aula de coreografia. Uma obra sóbria, austera,
sem nenhuma gratuidade, que utiliza os famosos Kindertotenlieder
(Canções para as crianças mortas) de Mahler
para dar vida a uma paisagem humana descrita com oficio impar. Mesmo
sendo a obra de 1937 se pode ver, desfrutar e entender perfeitamente
no início do século XXI, o que é possível
também graças a ajustadíssima reposição
de Donald Mahler, um verdadeiro especialista no estilo Tudor.
Também na lista de oportunas reedições figurou
“A Mesa Verde” (1932) de Kurt Jooss, outra jóia
dos anos trinta que ainda não perdeu encanto e, portanto,
não perdeu vigência. É importante registrar
a boa execução da obra por parte do corpo de baile
do ABT (com destaque para Isaac Stappas no papel da morte). Não
é comum que bailarinos jovens, cujo treinamento é
basicamente com aulas de ballet e executando tantas obras diferentes
em uma mesma temporada, possam ter o desempenho tão fluido
que eles tiveram. E o público fez sua parte ovacionando a
iniciativa. Boas obras são para sempre. (de Nova Iorque)
Valerio Cesio é crítico e coreógrafo.
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