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Não há como deixar sem registro um acontecimento que, fora do Brasil, suscitaria todo tipo de homenagens, galas, medalha outorgada pelo parlamento, e outras honrarias com que se cultuam personalidades do seu porte. Falo de Aldo Lotufo.
Aldo
e Caminada |
Não importa que, provavelmente, a presidência da Fundação Theatro Municipal sequer o conheça; nem que os colegas bem jovens, detentores de muitas piruetas e double tours, não consigam dimensionar sua importância porque não recebem esse tipo de orientação fundamental quando estão em fase de formação; nem que outras gerações, em geral voltadas apenas para suas próprias glórias pessoais, descuidem do necessário culto aos que os precederam, iludidos, ao que parece, quanto à importância da história da Instituição na qual dançam, que é umbilicalmente ligada a esse grande artista; não importa que o público de hoje não seja educado para venerar filhos com o brilho pessoal e, acima de tudo, com a vocação de Aldo.
Falando com franqueza, importa sim, mas já que ninguém se manifesta daqui, da minha coluna despretensiosa, escrevo em letras grifadas: Aldo Lotufo completou 80 anos!!!
Pois bem, para os que nunca viram Aldo dançar, para os que jamais trabalharam com ele, posso afirmar, sem sombra de erro, que ele representa uma mística. Era belo, sem dúvida, grande partner, nobre, clássico. Sua vida foi o Theatro, casa da qual só se afastou fisicamente por um tempo, assim mesmo quando não reconheceu, em determinada administração, alguma coisa visceral, essencial, associada à “sua casa”. Foi-lhe impossível, por exemplo, ver sua companhia trabalhando num clube de patricinhas da zona sul. Bem que tentou! Chorando, afastou-se correndo daquele lugar que nada tinha a ver com o Theatro Municipal; sequer era um teatro, um estúdio familiar, com atmosfera de arte. Sua sensibilidade rejeitou aquele arranjo bizarro, bem digno daquela administração.
Episódios da vida de Aldo são para muitos, talvez a maioria, desconhecidos; como, por exemplo, a “felicidade” de lesionar o menisco, que lhe deu o pretexto, tão desejado, para rejeitar o convite de Lucia Chase para integrar como solista o American Ballet Theater.
Os que não convivem com Aldo não podem imaginar que seu mundo é amplo no sentido de cultura artística, mas está circunscrito ao Rio histórico, à feira de antiguidades da Praça XV, ao beco do Theatro, ao Largo da Carioca, àquelas redondezas atemporais distantes do Rio balneário e fútil. Vive entre seus quadros, livros, peças antigas, CDs, óperas; criando um mundo particular onde poucos penetram.
Sou uma dessas pessoas. Tive a honra de dançar a seu lado inúmeras vezes, inclusive no último espetáculo de sua longa vida de bailarino, já com 56 anos, ainda com força para interpretar Les Sylphides e o pas-de-deux de D. Quixote.
Mas a vida me ligou a Aldo, também, através de sua amizade por Eric Valdo, meu marido. Sem pieguices, que não fazem parte da personalidade de nenhum dos dois, eles mantêm uma relação fraternal, tão duradoura, tão sólida, que poucos irmãos podem se gabar de usufruir. Têm uma confiança inabalável um no outro, se respeitam e se conhecem. Mais do que isso: Aldo é um dos nossos padrinhos de casamento.
No número passado falei de Bertha. Há como esquecer que ambos formaram a dupla mais emblemática do Municipal do Rio? Há como omitir que eles representaram para nós o que Fonteyn e Nureyev representaram para o mundo? Duplas de bailarinos dependem de uma química, de uma sintonia que, ou se estabelece e o par se funde, se transforma num único ser, ou o resultado será parcialmente falso. Bertha e Aldo, artistas de cuja amizade me orgulho de privar, formaram essa dupla. Completavam-se em cena.
Aldo 80, você está muito bem, graças a Deus. Obrigada pela sua amizade, pelo desprendimento de continuar dançando para me ensinar muito do que eu ainda não sabia. Aldo 80, o Brasil lhe deve uma homenagem por essa data, sobretudo chegando a ela com a integridade física e mental em que você se encontra. Aldo 80, o Theatro Municipal, seu staff, talvez não mereçam artistas do seu porte porque não os cultuam, mas você mereceu sempre este Theatro ao qual dedicou a vida.
Aldo, por essa data, por nosso amor comum pelo ballet e pelo Theatro, por nossa amizade pessoal, por nossos desentendimentos íntimos, um beijo.
Eliana Caminada é professora de História da Dança
na UniverCidade e Universidade Castelo Branco e foi primeira
bailarina do Theatro Municipal – RJ Página pessoal: http://www.elianacaminada.com
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