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Aqui estão os destaques desta edição. >> Coluna Visual - Lançamento do projeto das Câmaras Setoriais. >> Matérias - Momix e Débora Colker no Rio. >> Vera Aragão - Jovens Bailarinos Grandes Talentos.
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Coluna Vera Aragão

SENTIR OU PENSAR, EIS A QUESTÃO


Nos dias 12, 13 e 14 de agosto foi realizado, no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, o III Encontro Transdisciplinar de Pesquisa em Dança. Este encontro realizou-se por meio de uma parceria entre três instituições: o programa de pós-graduação em artes cênicas da Bahia, o Bacharelado em Dança da UFRJ e o próprio Centro Coreográfico.
O objetivo era tentar um diálogo com pesquisadores em dança em suas diversas modalidades conceituais e práticas, bem como pesquisadores de áreas próximas, interessados em tratar do corpo e da dança. Assim, o que moveu o evento foi a pluralidade de olhares, de modo a permitir – e incentivar – a diversidade de pensamentos e práticas sobre o corpo e a dança. Ocorreram, então, mesas com temas específicos, inclusive com convidados internacionais como Leslie Satin, da Universidade de Nova York e Márcia Monroe; em três dessas comunicações, foram apresentados trabalhos de conclusão de cursos de graduação, mestrado e doutorado. Estão de parabéns os organizadores, especialmente Regina Miranda e Marcus Vinícius Machado.
Tendo participado de uma das mesas, certa pesquisa me chamou particularmente a atenção: trata-se da monografia de Priscila Barros, formanda do curso de licenciatura em dança da UniverCidade. O título: a experiência estética na dança contemporânea – entender ou sentir?
Segundo Priscila, a pesquisa em questão teve como ponto de partida, a visão de um grupo de entrevistados, colhida durante um concorrido evento de dança contemporânea, no Rio de Janeiro. Em um primeiro momento, o trabalho configurou-se como um estudo comparativo das visões de estudantes de dança, profissionais e público leigo. Segundo a aluna, num segundo momento a experiência da recepção desse fenômeno foi estudada com embasamento na semiótica, abordando como o canal da arte pode ser recebido pelas pessoas e a dificuldade de apreciação destas no mundo contemporâneo - ocasionado, sobretudo, pela forma massacrante com que a cultura de massas age nas mentes do público em geral.
Na conclusão – e aí está o que julgo mais interessante – Priscila menciona ter constatado que, mesmo àqueles que tem condições sócio-econômicas de acesso à arte, o “acesso intelectual” é inexistente: grande parte do público se ressente “de não entender” aquilo que é apresentado nos palcos, atualmente. Desse modo, desencadeou-se a curiosidade desta jovem pesquisadora, em levantar uma série de questões que poderiam se configurar como causa desse problema, investigando, por exemplo, de quem é a culpa: seria do egoísmo de artistas que criam para eles mesmos ou para uma elite? Seria um descaso com o espectador, se de alguma forma, aquilo vai chegar até alguém? “Ou seria culpa tão somente da cultura imediatista, que precisa o tempo inteiro de signos óbvios para receber algum fenômeno?” - pergunta Priscila.
Ao que me parece, “não entender”, nesse caso, está intimamente ligado a “não sentir” e talvez esse seja um filão muito rico para começarmos a rever conceitos. O trabalho coreográfico de qualidade artística deve ser capaz de tocar o espectador, fazer aflorar suas lembranças, envolvê-lo como cúmplice, como participante; só assim ele “entenderá” a cena. Nesta obra de criação, será necessário distinguir movimento e gesto, como aconselha o pesquisador de dança da Universidade de Paris, Hubert Godard, no livro Lições de Dança 3: movimento é algo que mesmo uma máquina é capaz de produzir, enquanto o gesto “é o pré movimento em todas as suas dimensões afetivas e projetivas”. E são justamente as intensidades corporais dos bailarinos que irão repercutir no corpo do espectador. Godard continua: “o que vejo produz o que sinto e, reciprocamente, meu estado corporal interfere, sem que eu me dê conta, na interpretação daquilo que vejo”.
Assim, deverá também, o trabalho de boa autoria coreográfica, possibilitar aos bailarinos mostrarem seu domínio da cena, o que envolve um conjunto de competências que vão desde o controle muscular e dinâmico, capazes de transmitir a estética que lhe é requisitada, à possibilidade de usar este domínio para atingir o que é mais caro: a qualidade do que é artístico. E é no gestual, na dança, que a produção de sentido se concretiza.
A formação de platéia é responsabilidade que deve ser partilhada entre programas de incentivo à cultura e artistas em geral. Mas é necessário, insisto, que os autores dominem, igualmente como os bailarinos, o seu métier, ou, caso contrário, será sempre aconselhável que alguém da platéia denuncie, como na fábula, que “o rei está nu”.

Vera Aragão é bailarina aposentada do Theatro Municipal do RJ,
formada pela escola Maria Olenewa, integrante do primeiro elenco da Companhia Brasileira de Ballet, pedagoga, mestranda da UNIRIO, professora de ballet e prática de ensino do curso de licenciatura em dança da UniverCidade, RJ

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