Um povo que é feliz
São oito horas da manhã e corro para chegar à redação. Engulo o café enquanto no jornal diário as manchetes dão conta da violência, das últimas denúncias das CPIS, da devastação da natureza e da guerra. Já na saída do prédio fico sabendo do último assalto e dos aumentos dos preços no supermercado que são o assunto de conversa animada entre vizinhas. No caminho os policiais montam blitz com suas escopetas mirando os transeuntes e a pichação faz com que tudo pareça mais sujo e decadente do que já está. Passo à indignação frente aos espaços públicos invadidos, o medo ao passar por meninos de rua e pela rota de entrada de uma das muitas favelas que nos rodeiam. O velho quase maltrapilho pede esmolas para comprar remédios que sua parca aposentadoria não permite comprar, mais à frente a grávida pede um trocado para comprar leite para os dois meninos que, sem vaga em escola, arrasta pela mão. Me atraso desviando, na calçada, dos carros estacionados, dos buracos, do cocô de cachorro e de um motoboy. Desisto e atravesso a rua, mas com cuidado, já o que o sinal é meramente decorativo e um bueiro sem tampa espera um incauto. Não, eu não moro num país pobre, nem em um bairro da periferia. Tudo isso acontece no maior país da América Latina, na cidade dita maravilhosa, num bairro de classe média (seja lá o que isso queira dizer). Enfim chego. Na mesa, de um lado, contas para pagar, impostos; Do outro, folhetos, releases e fotos falam das iniciativas corajosas de tantos profissionais e artistas brasileiros que fazem da dança quase uma religião. Por um momento esqueço a vida lá fora – festivais, associações, espetáculos, livros, cursos me levam para um país de sonho e beleza, para um povo que vive a fazer arte. Mas logo a falta de recursos que não permite à maioria anunciar e a nossa própria limitação de espaço que exige escolher, cortar, decidir o que conseguiremos publicar, o que só poderemos colocar na versão virtual ou nem poderemos citar, me traz de volta à vergonhosa situação que vivemos. Para onde vão nossos impostos? Somos muitos, trabalhamos arduamente e pagamos altos tributos para ter educação, saúde, habitação e cultura. Mas o dinheiro escoa pelos ralos da incompetência, da corrupção e da omissão. Me pergunto o que milhões de brasileiros como eu podem fazer isolados em suas desesperanças, incredulidade e tristeza. O voto sem dúvida, mas não basta e demora muito. Rezo para que exista entre governantes, grandes empresários, líderes sindicais, políticos e todos aqueles que têm o poder na mão, meia dúzia de honestos que nos ajudem a fazer dessa maldita crise a libertação de um povo que luta, resiste e que tudo que pede é ter seus direitos respeitados, suas crianças e velhos amparados, segurança e dignidade. Só assim esse povo que canta e dança poderá ser, verdadeiramente, feliz.
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O Brasil já era moda antes de ter seu ano na França. As cores verde e amarelo, as sandálias havaianas, a caipirinha, enfim, o nosso jeitinho conquistou a Europa, os japoneses cada vez mais vêm se inspirar em nossa arte, os australianos estão dançando muita lambada...
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