Com
este slogan, abriam-se os espetáculos da 13ª edição
do festival de dança de Bento Gonçalves, na belíssima
serra gaúcha. Assim, a cidade de sotaque italiano, capital
do vinho – e que vinho! – se transformou na cidade da
dança. Segundo dados da assessoria do festival, por lá
passaram cerca de oito mil bailarinos – entre brasileiros,
chilenos, argentinos, paraguaios e uruguaios – realizaram-se
20 oficinas, foram apresentadas 700 coreografias para um público
geral de quinze mil pessoas, sob coordenação geral
de Erci Grapiglia e coordenação artística de
Bia Mattar. O “Bento” , como é carinhosamente
chamado pelos participantes, divide-se em 2 fases: na fase A, a
dança moderna, o jazz, o contemporâneo e street dance
são o foco; na fase B, ballet clássico. Sob curadoria
do ex-primeiro bailarino do Theatro Municipal do Rio de Janeiro,
o coreólogo Emílio Martins, o festival apresentou
algumas inovações este ano, como os encontros entre
o corpo de jurados e os representantes das escolas que apresentaram
concorrentes, o que constituiu importante troca pedagógica
de conhecimentos e informações.
Freqüentemente ocorre em festivais dos melhores não
serem contemplados. Na opinião desta colunista, em Bento
não houve surpresas: ao menos quanto à modalidade
ballet, nosso foco, os vencedores foram os melhores em suas apresentações.
Desse modo, cabe mencionar a Escola de Dança Ballerina, de
Alegrete, pela coreografia “Valsa em cores” (melhor
coreografia) e por “Dancers” (melhor trio): trabalhos
bem elaborados, criativos, com figurinos adequados e de bom gosto.
O prêmio de melhor grupo ficou com Dora Ballet, de Caxias
do Sul, pela apresentação do adágio de “Paquita”.
Como os demais laureados, Dora apresentou bailarinos seguros tecnicamente
e encantou platéia e jurados com uma apresentação
irrepreensível. Um prazer assistir a jovens tão disciplinados
e bem orientados. O prêmio de bailarino revelação
coube merecidamente ao menino Yuri Chiochetta, do Ballet Cia. Júnior,
de Porto Alegre e o de melhor bailarina, foi para Ana Paula Zuccolotto,
também da escola Dora Ballet, que se apresentou na conhecida
e difícil variação de “Esmeralda”
– conseguindo dar característica própria à
personagem, fazendo uma apresentação precisa, com
personalidade e absolutamente musical.
Outros jovens de talento e possibilidades foram vistos naquele
palco; crianças que, como tão bem mencionou Erci Grapiglia,
“substituíram as brincadeiras para se dedicar às
aulas e aos incansáveis ensaios para produzir arte”.
Desse modo, os festivais são um momento de recompensa ao
esforço, momento onde o sonho pode se tornar realidade. Foi
assim para Rafael Mello, da Escola de Ballet Elisabeth Santos, de
Porto Alegre, selecionado pelo corpo de jurados, por unanimidade,
como o Melhor Bailarino. O jovem, que começou a dançar
aos dez anos, chamou a atenção de todos pelas possibilidades
físicas incomuns e facilidade na execução de
movimentos, dos simples aos mais complexos. Dono de uma flexibilidade
privilegiada, em sua família consta uma campeã de
ginástica olímpica – o que nos leva a imaginar
que algum componente genético contemplou generosamente a
ambos. Rafael é ainda um diamante bruto – por ter pouca
idade, falta-lhe maturidade e o vigor do homem em cena: é
ainda um adolescente em formação e que deverá
ser trabalhado, orientado para tal. Mas, escondido atrás
da pedra não talhada está o brilhante, precisando
apenas ser lapidado adequadamente, ganhar um prisma que o permita
brilhar. E isso se faz com escola. Concordo com Eugenia Feodorova
quando diz que bailarino nasce, que a arte nasce dentro de alguns
seres humanos. É preciso apenas burilar e isso se faz com
estudo sistematizado, repito, com escola – e assim, Rafael
certamente irá aproveitar a bolsa que recebeu no Festival
para a escola de Cuba.
Erci Grapiglia pretende mais do que a realização
de um festival: ao convidar o governador Germano Rigotto para o
evento, disse querer incentivar a dança no estado com a criação
de um Corpo de Baile estadual. Segundo notícias do próprio
evento, a idéia agradou ao político que acredita que
a Lei Estadual de Incentivo à Cultura poderá viabilizar
este projeto.
Sem dúvida, essa é uma das portas ao tão almejado
Primeiro Mundo, ou seja, investir na cultura, pois não temos
registro, na História da Humanidade, de país nenhum
que se tenha desenvolvido dando as costas à educação
e à cultura – que, aliás, deveriam ser indissolúveis.
Certamente criar um Corpo de Baile em cada capital brasileira é
um sonho e sonhar não custa nada. Nesse caso, como professora
e pedagoga aproveito para sonhar também com a criação
de uma escola oficial em cada capital brasileira, pois, em última
análise, o que propicia a formação de bons
bailarinos é a formação de professores com
nível de excelência.
Vera Aragão é bailarina aposentada do Theatro
Municipal do RJ, formada pela escola Maria Olenewa, integrante
do primeiro elenco da Companhia Brasileira de Ballet, pedagoga,
mestranda da UNIRIO, professora de ballet e prática de ensino do
curso de licenciatura em dança da UniverCidade, RJ
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