Companheiros (atenção: a palavra “companheiro”
nos meus textos nada tem a ver com a palavra banalizada e vulgarizada
pelo partido político que está no poder), alguém
sabe onde está o grande coreógrafo brasileiro Renato
Magalhães?
Certamente, não pergunto aqui pelo meu padrinho de casamento,
marido da minha “dinda” Helena Lobato; nem por João
Paulo, filho do casal, de cuja amizade privo há mais de 40
anos. Pergunto pelo homem de dança, colega e amigo do
Theatro Municipal do Rio de Janeiro, primeiro-bailarino em Nantes,
em Palermo, no Chile, primeiro criador brasileiro a ter uma obra
- “Catulli Carmina” - encenada no palco do Teatro Bolshoi
de Moscou com o Ballet Del Nuevo Mundo de Caracas, único
coreógrafo brasileiro que teve a honra de criar para um dos
mitos vivos da história do ballet - Alicia Alonso, ocasião
em que foi premiado com uma ovação de mais de dez
minutos, com obras montadas em companhias também no México,
na Noruega, em Cuba, sem falar nas nossas, dançadas por Ana
Botafogo, Aurea Hammerli, Cecília Kerche, Cristina Martinelli,
Georgina Parkinson, Merle Park, Norma Pinna, Desmond Kelly, Francisco
Timbó, Eric Wenes, Helio Bejani, Marcelo Misailidis, Paulo
Rodrigues, entre tantos outros, coreógrafo da versão
mexicana da peça Gota d’água, criador neoclássico
de estilo bem definido, como se pode assistir em sua obra inspirada
e bela. E atemporal porque o que Renato cria é Arte.
Pergunto pelo coreógrafo que criou para mim e Antonio Bento
o belíssimo pas-de-deux “Eros e Psiché”
e que concebeu o final do espetáculo de minha despedida,
fazendo daquele momento, dividido com minha “tribo”
- como gosta de dizer Fernanda Montenegro quando fala dos seus companheiros
de ofício – um dos mais bonitos de minha vida.
Decididamente, nosso ballet tem coisas inacreditáveis. Por
um lado revela sempre uma enorme preocupação em relação
a estrangeiros: se estão trabalhando ou não, como
estão vivendo, se têm seu trabalho ou mérito
reconhecido. A preocupação desculpa até o,
digamos, desconhecimento eventual por parte deles pela nossa própria
história da dança, pelos nossos artistas ou por nós,
povo brasileiro. Contudo, raramente mostramos a mesma preocupação
quando se trata de um companheiro nascido (e formado) aqui. Nosso
nível de exigência, nesse caso, atinge um patamar quase
inatingível. O profissional brasileiro tem que ser um modelo
diplomático de educação e no decorrer do seu
trabalho não pode cometer qualquer erro, equívoco
ou engano. O que no estrangeiro é temperamento, em nós
é gênio insuportável; neles é oficina,
é experiência necessária, é laboratório,
em nós é incompetência. Não, nada
tenho contra estrangeiros; ao contrário, já aprendi
e continuo a aprender muito com eles, sobretudo o amor que demonstram
pela sua terra, não importa o problema que os tenha levado
a sair dela, e o espírito de solidariedade que os faz batalhar
para conseguir um trabalho para seus conterrâneos, onde quer
que estejam vivendo ou onde tiverem conhecidos que lhes possam –
aos conterrâneos - estender a mão. Além do mais,
como podemos ser contra algum povo se somos o amálgama de
tantas raças?
O que não se pode admitir é que as preocupações
mencionadas não se estendam também aos nascidos e
formados nesse Brasil, complicado, sim, por um lado, mas maravilhoso
por outro, como de resto, todos os países e seus povos (a
propósito: não estou aqui pretendendo disputar uma
olimpíada de problemas enfrentados pela humanidade). Tampouco
é admissível a idéia de que Renato Magalhães,
como vários outros artistas nacionais, tenha que conviver
com a intolerância e o descaso de nós por nós
mesmos, revelando a triste realidade de um país que até
hoje continua a se sentir colônia. Sobretudo nós, cariocas.
É constrangedor para o Brasil, quando alguém pergunta
onde está um coreógrafo tão importante como
Renato, por exemplo, e respondemos: não sabemos. Ou simplesmente:
não cria nada porque não lhe permitem.
Vamos combinar: é preciso que ninguém esqueça,
antes de tudo, de que Renato sempre dignificou sua terra com seu
trabalho. Ele, mais do que ninguém, tem o direito de experimentar,
de errar, de realizar, de botar banca. É isso mesmo. Até
pelo currículo que construiu ao longo de sua carreira, que
não é pequeno.
Quando vamos parar com isso? Quando vamos deixar de nos digladiar,
nos desprestigiar, se precisamos desesperadamente de uma referência
acadêmica para os novos talentos que vão surgindo?
Uma trajetória como a de Renato não se constrói
a partir de nada. Ou alguém tem dúvidas disso? Ou
alguém questiona que ele ainda tem muito a criar, ensinar,
mostrar, orientar? Será que vão deixar que se
percam todas as suas criações como já fizeram
com Maryla Gremo e com todo o repertório valioso do Municipal?
Renato Magalhães completou 70 anos com alma de rapaz. Daqui,
desse espaço, pergunto: Renato, cadê você, seu
talento, sua bagagem, seu enorme amor pelo ballet?
Eliana Caminada é professora de História da Dança
na UniverCidade e Universidade Castelo Branco e foi primeira
bailarina do Theatro Municipal – RJ Página pessoal: http://www.elianacaminada.net
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